Guapo desvenda a ‘Música de Fronteira’

Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil. A Orquestra do Estado de Mato Grosso celebra a música desses quatro países vizinhos que dão o tom dos Concertos Oficiais de maio – dias 5 e 6, no Cine Teatro Cuiabá, às 20h no sábado e 19h no domingo. Sob a batuta do maestro Leandro Carvalho, as apresentações exibem ao público mato-grossense peças com origem nos países de fronteira e com grande repercussão na cultura musical do Brasil, em especial de Mato Grosso.

O repertório revela o rico universo cultural dessas quatro pátrias vizinhas que formam uma verdadeira região cultural supranacional. Para desvendar essa tal ‘Música de Fronteira’, Milton Pereira de Pinho, o Guapo, em uma entrevista antológica, fala sobre os ritmos como guarânia, polca paraguaia, chamame, mazurca e rasqueado, que compõem o repertório da OEMT nos concertos de maio… E muito, muito mais! Confira!

Para começar, conte um pouco da sua trajetória vida e na pesquisa musical.

Guapo – Eu nasci no primeiro ano da segunda metade do Século XX. Isso foi em Cáceres, no dia 05 de Setembro 1951. Minha mãe é uma mulher ribeirinha, mascadeira de fumo e lavadeira na beira do rio Paraguai. Ela vai fazer 80 anos. Os pais dela eram pessoas simples, que tocavam viola de cocho e cantavam. O meu pai era um cara muito estudado, era um intelectual que tinha servido na guerra, na Marinha. Ele era fluente em 04 idiomas e entendia bem mais outros dois, principalmente o Guarani, que era o idioma que ele falava e escrevia muito bem. Eu fui criado ouvindo todo e qualquer tipo de música por causa dele. Meu pai não tinha religião, tal como eu. A nossa religião é a música [risos]. Eu fui criado para perceber conotações, escala e qualquer coisa que uma música tem. Para você diferenciar o que tem num folclore e passa para o outro. Eu fui criado com esse molho todo, ainda mais com as influências do nosso folclore da baixada cuiabana – o Cururu, o Siriri e o Rasqueado. Eu sou um produto disso aí. Se há uma coisa que eu sei viver bem é a cultura. Eu vivo a cultura. Eu não só faço como eu vivo. Eu como a cultura, por conta das comidas tradicionais; Eu canto a música, componho… Eu vivo em função disso.

Como se dá a sua participação no cenário musical mato-grossense?

Guapo – Eu faço parte da Associação Mato-Grossense do Rasqueado Cuiabano e trabalho em cima do Rasqueado, com canções próprias, independente da acentuação folclórica; Componho trilhas para cinema – fui convidado agora pelo Pescuma para fazer parte do filme do Marcelo Barreto, que está vindo aqui para Cuiabá; Eu trabalho assim: escrevo, canto, componho e vou levando a vida. Eu gravei dois cd’s de músicas com minhas letras. Eu também fiz um trabalho de pesquisa gravando os principais mestres do Rasqueado antigo, que foi “A Rua do Rasqueado”. Também fiz o “Berrante Pantaneiro”, gravado no ano passado pela Orquestra do Estado de Mato Grosso. Estou trabalhando em uma sinfonia em quatro movimentos que eu fiz para o rio Paraguai.

O que lhe faz dedicar tanto da sua vida a essa atividade?

Guapo – Eu tenho uma ideologia comigo que é a Vanguarda Nativista, e ela busca a música de origem folclórica, popular, com as conotações mais autênticas. Não estou falando do regional ufanista, que é muito comum. Quando eu canto, não estou dizendo que o pantanal, o rio Cuiabá ou o Mato Grosso são os melhores lugares do mundo, mas sim, enfocar esses valores. Hoje em dia, a vida, a filosofia e o jeito de ser do ribeirinho é uma coisa muito importante para o conceito de qualidade de vida. Essa é a música que eu busco: Cantar as águas, os rios e focar esses valores que o mundo está perdendo, pois a música está se tornando, cada vez mais um circo do que melodia. O pessoal fica fazendo cenografia. O que eu busco é exatamente manter essa ligação, esse fio tênue entre ser pantaneiro, ser mato-grossense e cantar a minha aldeia para o resto do mundo.

Qual a importância do Canto Guacho na sua obra?

Guapo – O Canto Guacho aconteceu quando eu vim passar férias em Mato Grosso, na época em que eu estudava em São Paulo. Eu fui até a fazenda Corredeiras, lá em Cáceres, onde uns amigos estavam me esperando. Fazia muito tempo que eu não ia àquele lugar e quando eu volto lá eu vejo o rio Jauru todo barrento numa época que não era de cheia, pois era a vazante. A água daquele rio era cristalina – você olhava e via os peixes lá no fundo. Isso me deixou muito bravo. Fiquei com raiva de tudo aquilo. De repente eu peguei o violão e, naquele momento, na beira daquele rio, eu criei o Canto Guacho. E o que é o Canto Guacho? Se você olhar a letra, guacho na linguagem Quéchua quer dizer órfão. É como aquele bezerro, que a mãe vai para o matadouro e ele fica sozinho. Eu dei esse nome porque eu estava me sentindo um guacho. Eu vi que aquela beleza foi desfeita. Na letra da música eu falo dessa resistência – de manter a beira do rio com todas as vicissitudes daquele lugar. O Canto Guacho nasceu desse ímpeto que aconteceu comigo.

Em maio, a Orquestra de Mato Grosso irá apresentar os concertos dedicados a “Música de Fronteira”. Qual a importância desta região de fronteira para a música universal?

Guapo – A música, na verdade, foi o primeiro produto que deu início à globalização. Quando inventaram o rádio, o primeiro produto que atravessava continentes, países, povos e etnias, foi a música. A música era um “contrabando” que iniciou a globalização. Os povos começaram a se encontrar através da música. Através do rádio e do disco que vai ter as influências no Rio de Janeiro para aparecer a Bossa Nova, com influências do Jazz; O rádio trouxe influências muito fortes das músicas dos nossos vizinhos latino-americanos; Com o rádio, a música começou a ir para todos os lugares. Por isso ela é o produto que deu início à globalização. No caso das nossas fronteiras platinas, criaram o Mercosul, que é um tipo de ação política e econômica, mas esquecem que para haver esse consumo de mercadorias, esse envolvimento comercial, precisa da cultura. Somente a cultura vai salvar a humanidade. Somente a cultura consegue manter a pessoa equilibrada. Não é à toa que a cultura indígena está sendo exportada para o mundo todo. A música de fronteira pode formar esses laços, independente de torcida de futebol, brasileira e argentina, além de abrir o coração da América do sul. Somos, em maioria, índios e negros. Eu estive no Paraguai e ouvi muita música brasileira de concerto nas mãos de Berta Rojas, que é uma grande violonista; Luiza Pompardili tocando “Tico-tico no fubá” e músicas de Villa-Lobos… Agora eu pergunto: quais músicos brasileiros tocam a música paraguaia? O único compositor paraguaio que brasileiros tocam é o Augustin Barrios, um grande violonista que foi gravado por John Willian e tantos outros grandes músicos do planeta. Mas não é só Augustin Barrios que existe no Paraguai. Tem o Hermínio Gimenez, que o Leandro Carvalho mostra muito bem, e tantos outros compositores. O músico brasileiro ainda tem as costas viradas para a América Latina e é isso que a música de fronteira vai levar a diante, principalmente depois que for gravado e espalhado por aí. Isso vai gera um interesse maior sobre o que é o Cone Sul e essa música platina e guaranítica.

Ouve-se falar muito do Rasqueado Cuiabano, mas existe outro tipo de Rasqueado?

Guapo – Existe o Rasqueado de Fronteira, que se desenvolveu no rio Cuiabá à cima. Você o vê muito na região de Nobres, Diamantino, Alto Paraguai, em que os caras tocam o acordeão e o violão. Aqui em Cuiabá tinha um grande acordeonista, o Nardinho, que morreu há algum tempo. Ele gravou três ou quatro discos. Ele era um instrumentista com extremo poder de execução e ampliou o Rasqueado Cuiabano, que também se desenvolveu com instrumentos de sopro – sax, trombone e trompete, por conta da caracterização das bandas marciais. E como os compositores tocavam muita música brasileira – Maxixe, Samba, Chorinho, Valsa, o Rasqueado Cuiabano adquiriu essa conotação própria, ligada mais à música brasileira. Já o Rasqueado de Fronteira é mais voltado para a música paraguaia e argentina.

Para quem não conhece, o que é essa “música de fronteira”, como o Chamame, a Polca Paraguaia, a Guarânia? Onde ela surgiu?

Guapo – No meu entender, a música de fronteira vem nesse processo de formação do Estado de Mato Grosso. Ela acompanha o rio Paraguai e o mate – o chimarrão ou o tererê (mostra a sua cuia com a erva). Essa bebida é tomada daqui até o estuário do rio Prata. Os Guarani, que são os donos desta cultura da erva mate, criaram esse manancial de coisas ligadas a um tipo especial de canto que serão apresentados no concerto “Música de Fronteira” da Orquestra de Mato Grosso. E o que é a fronteira? Quem é o chamamezeiro? Quem começou a dançar? Posso dizer que foram nas bailatas, como diz quem mora na Argentina. Meu pai dizia que em Bela Vista, Porto Murtinho, perto de Corumbá, já dançavam isso. O Chamame foi, primeiro, uma música dos Mensu, os povos que trabalhavam nos ervais, que existiam tanto aqui no Mato Grosso como no Paraguai e na Argentina. Esses ervais é que deram essa auréola da formação dessa música de fronteira. Tudo estava unido em torno do tererê, do chimarrão. Eles se reuniam para tomar essa bebida e era nessa hora que eles começavam a tocar, a compor. Era aí que a coisa fluía. E como eles andavam muito de barco, essa fluência, esse sair daqui e ir para outra região… O barco trazia e levava a música. A minha avó, que era pianista lá de Cáceres, cansou de tocar à bordo do Entrúria, do Nabiléque e de outros barcos que chegavam a Cáceres. Faziam-se bailes nos salões desses grandes navios. Esse vai e vem de embarcações é que criou tudo isso aí, que é mantido até hoje. Você pode pegar um músico de Lambadão e ver que ele está tocando Polca Paraguaia. A música de fronteira faz parte da própria historicidade da música platina.

Dentro dessa trajetória da música platina que você está nos contando, é possível perceber as nuances e diferenças de um Chamamé para uma Polca Paraguaia, uma Guarânia e mesmo o Rasqueado? No que esses ritmos se diferenciam e se tornam únicos?

Guapo – Existe tanto a diferenciação no modo de tocar, na pegada, como também na parte técnica. Se a pessoa vai tocar o Rasqueado Cuiabano, que tem uma acentuação diferente da Polca Paraguaia. Essa acentuação é parte da influência do Siriri, da cultura Negra, Indígena. A Polca Paraguaia é mais lisa, marcada no 3×4, enquanto que o Rasqueado Cuiabano é marcado no 2×4. O Chamame é muito parecido com a Polca, só que ele é mais balanceado, cadenciado e, mesmo, suingado. O Chamame tem uma conotação mais para o Blues, se vamos fazer uma comparação com uma música de outra região. É uma música que tem muito suingue e contra-rítmico, tanto para tocar quanto para cantar – tem muita improvisação. Já a Guarânia tem uma acentuação mais erudita. Foi feita num contexto urbano, em Asunción, capital do Paraguai, para desenvolver poemas sinfônicos. Porém, como ela entra no Brasil pela via de Mato Grosso e com músicos mais simples, que não tocavam instrumentos de orquestra, somente violão e sanfona, ela entra no Brasil e vai parar em São Paulo e é classificado como música sertaneja, porque veio do interior. Lá em Asunción era música urbana (risos). É um processo bonito. O Zé Ramos Tinhorão, crítico musical brasileiro, um dos caras mais respeitados, começou a perceber isso. A transmutação da Guarania, que sai dos salões de festas de Asunción, entra no meio rural mato-grossense e paulista e vira música sertaneja. Isso é uma coisa que a música de fronteira processou.

E a Mazurca, que tipo de música é essa?

Guapo – A Mazurca é de origem polaca. A informação que eu tenho é que ela era uma música mais tocada com piano. Ela não era uma música popular em Mato Grosso. Era mais dos saraus mato-grossenses, com Dunga Rodrigues, Zulmira Canavarros, pessoas que tocavam a Mazurca via partitura. Ela não foi uma música popular no meio do povão, como o Rasqueado, a Polca Paraguaia, o Chamame, a Guarânia. A Mazurca era uma coisa mais de requinte. No caso do Roberto Corrêa que compôs a obra chamada Mazurca do Viajor, é algo da cabeça dele, fruto de um processo que ele criou. Ele fez uma música diferente das outras, da Guarânia… Quando ele criou esse tipo de Mazurca Pantaneira. É um trabalho à parte. É o mesmo caso lá do sul, aquele grupo Acaba, lá de Campo Grande, que criou Cantos do Pantanal mas com um jeito de cantar mas que não é propriamente um Rasqueado , Chamame ou Guarânia. Nem o Siriri. Tem um Siriri lá, só que com uma outra acentuação, um novo jeito de cantar o pantanal. Tem um jeito bem nativista de mostrar o pantanal, mas com outras raízes rítmicas e melódicas. Elas não são 100% mato-grossenses. Vem mais para o leste brasileiro. Ali você encontra acentuação de Baião, de Arrasta-pé de São Paulo, mas ao mesmo tempo você vê a acentuação do Siriri, do Cururu. É um trabalho próprio dele.

Fale mais um pouco do repertório que será apresentado pela Orquestra de Mato Grosso nesses concertos que homenageia a música de fronteira. Quais as curiosidades que você conhece sobre essas composições?

Guapo – Cada uma dessas músicas é uma história. Dá para escrever um livro com Merceditas, Quilômetro 11… Todas essas músicas encerram uma consistência por elas terem sido verdadeiras. Em Chalana, por exemplo, o Mario Zan (compositor), estava apaixonado por uma mulher, uma paraguaia, lá em Corumbá. O Mario Zan não podia casar-se com ela por já ser casado em São Paulo. Ela queria decidir a sua vida e foi embora numa chalana. Ele ficou chorando com o acordeão na beira do rio Paraguai quando ela embarcou. É aí que saiu a música. Isso quem me passou foi o Osmar Zan, o filho dele. Merceditas, por exemplo, era uma mulher de origem ucraniana que nasceu naquela região de Santa Fé e Corrientes, na Argentina. Ela era muito bonita, uma loira de olhos verdes. Naquele tempo a maior parte das pessoas eram morenas. Ela era namoradeira e não queria nada com nada. O compositor da música, Raul Sixto Rios era um teatrólogo e compositor que veio de Buenos Aires para apresentar um trabalho na região de Santa Fé e a conheceu. Teve o baile… Na hora de ir embora, após a apresentação, ele disse para ela que iria voltar para pedi-la em casamento. Ele foi para Buenos Aires e quando voltou foi pedir a mão dela para o pai – naquele tempo era assim. O pai liberou mas ela não quis. Ficou fazendo um doce, como se diz aqui (risos). Ele foi embora chateado. Aí ele cria essa música, Merceditas. E como naquela época saía na rádio, ela escutou a música e disse que todas as palavras que ele falou foram colocadas na música. A música ficou famosa. Ele se casou, não voltou para Santa Fé, nem teve filhos. Ele continuou trabalhando e ganhou muito dinheiro. A esposa do Raul morreu e, viúvo, ele voltou para Santa fé para falar com a Mercedes e ela não o aceitou, novamente – ela já estava com uns 35 anos. Quando está perto de morrer, Raul manda toda a herança para Mercedes. Ele morre em 1997, e ela morre de câncer, em Santa Fé, velha e sozinha, no final de 2003.

E Saudade, de Mário Palmério, alguma história para contar dessa música?

Guapo – Saudade tem uma história lindíssima. Palmério foi para o Paraguai como embaixador brasileiro e lá ele começou um relacionamento com uma amante de um dos generais do Stroessner (presidente paraguaio de 1954-1989). Se ele fosse pego, estava lascado… O regime era carniceiro… Mas ele conseguiu levar a coisa. Ficou lá por dois anos. Quando ele voltou para o Brasil, em 1962, combinou que iria mandar uma carta para o endereço de uma amiga, para que ninguém pegasse a carta e não gerasse encrenca. Ele escrevia nessa carta que estava com muita saudade dela. Mas ela não entendia essa palavra. Um dia ela escreveu: “Usted me diz que estas com mucha saudade. Lo que és eso? Lo que és saudade?” Aí ele fez a música para explicar em espanhol o que quer dizer a palavra em português.

Como você vê a roupagem orquestral para esse tipo de música popular/folclórica?

Guapo – Leandro Carvalho é um gênio! Além disso, é uma pessoa persistente nas coisas que faz. Por exemplo, ele está tocando Quilombinho, de Zé Agnelo, de uma forma que ninguém apresentou ainda. Ele levou essa música a algo de rara beleza e está buscando fazer isso com as outras músicas. São arranjos bem feitos, encarando a música com muita garra… Ele é um maestro de sentimento. Ele não costuma fazer bem aquilo que ele não sente. Quando ele conheceu a “música de fronteira” ele ficou deslumbrado, principalmente nas composições de Hermínio Gimenez, que já eram orquestradas. O trabalho que ele está fazendo com essas músicas na Orquestra de Mato Grosso é algo imperdível.

E o que significa essa fronteira entre o erudito e o popular? O que ela une e separa?

Guapo – Em Mato Grosso a fronteira nunca separou. O idioma Guarani, assim como o tereré, a costela de boi e a mandioca cozida eram parte do dia a dia das pessoas, até lá na Argentina. Nunca houve fronteira por aqui. Existe hoje o caso do narcotráfico. Naquele tempo não houve isso. No coração são se separa, nem com Geografia, nem com Matemática, nem com nada. Tanto é que o Mato Grosso pós-divisão é o mesmo no coração do pantaneiro. É na política que a coisa se divide, não no coração. O Dino Rocha – um grande músico de Campo Grande que até hoje eu não tive o prazer de conhecer, gravou uma canção chamada “Índio Mato-Grossense”, no final dos anos 1970, em que ele diz: “Mato Grosso dividido, só ficou meu coração / Que jamais será partido, por sofrer na divisão. / Como índio mato-grossense quero sempre ser lembrado / Divisão não me convence, andarei de lado a lado.” É isso que eu posso falar.

E como você vê a contribuição de um concerto como esse para o nosso cenário cultural?

Guapo – A Orquestra de Mato Grosso dá muitas contribuições a esse estado, que deveria dar mais valor a essa orquestra. Além de estar trazendo as grandes músicas da região de fronteira, como “Quilometro 11”, “Merceditas”, “Recuerdos de Ypacarai”, “Vila Guilhermina” e outras, o maestro Leandro está levantando o questionamento de um passado que Mato Grosso teve, desse envolvimento com a fronteira aquática (platina) e que, a pessoa que ouve esse concerto vai sentir a ligação sentimental, própria dos povos latino-americanos – que é um povo que age tanto com o coração.

Já que falamos de fronteiras, territórios, saberes e culturas, lembramos que Mato Grosso surgiu há 264 anos como capitania do Império Português na América. O que você teria a dizer sobre o aniversário de fundação de Mato Grosso?

Guapo – Quando foi criado a capitania de Mato Grosso, os portugueses estavam querendo estender as fronteiras do seu império. Na época, os Jesuítas foram expulsos por conta dos negócios do papado com o Marquês de Pombal, essa região ficou desmilitarizada. Conforme coloca o Lenine Campos Póvoas em seu “Influências do Rio da Prata em Mato Grosso”, ele coloca que até moedas de outros países funcionavam aqui dentro de Cuiabá (risos). Eu acho que a comemoração é isso que a Orquestra de Mato Grosso está fazendo, começando pela música. Até hoje o Ministério da Cultura vê a cultura brasileira como o Tratado de Tordesilhas, do ano de 1494: Somente Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo. E acabou. Eles nunca promoveram a cultura do Rio Grande do Sul, da Amazônia, de Mato Grosso, de Goiás. Esse é um problema que está nas cabeças de quem comanda o Ministério da Cultura. O concerto que a Orquestra de Mato Grosso vai apresentar é um motivo para chamarmos a atenção do Brasil de que nós, brasileiros, temos de virar de frente para a América Latina, porque eles já estão de frente para nós há muito tempo.

Para encerrarmos, quando se ouve falar no Guapo, pensa-se no compositor e, também no Guapo pesquisador, apaixonado pela música e pelos discos. Existe uma fronteira que divida esses dois sujeitos?

Guapo – Eu acho que não há fronteira, porque eu não paro para compor música. A música acontece quando eu estou andando por aí… A música vem na minha cabeça. Eu venho para cá, pego a viola de cocho, o violão e faço. Nessa hora eu não penso. Quando não se pensa, não se divide. O pensamento foi uma coisa que os gregos criaram – com a lógica e o silogismo, para criar facções nas coisas. Mas o sentimento não tem jeito de separar. A não ser que você fique treinando, fazendo um monte de exercícios, à maneira do Oriental, para você separar o autor de sua obra; Isso é muito difícil. Como eu conheço muitas músicas, quando eu vou escrever, procuro ser o mais didático possível. O pesquisador aparece aí, também. Quando vou para um ambiente que é do folclore, da coisa nativa, eu sinto uma espécie de empatia psicológica. Eu fico muito envolvido. É uma coisa minha. Eu queria poder, a cada dia, estar num lugar diferente, nativo, escutando Chamamé, Guarânia, Rasqueado, Jazz, Blues, a orquestra dos turcos, dos japoneses, o grupo folclórico dos ciganos… A música folclórica é alimento para a minha alma.

Por Luiz Gustavo Lima e Protásio de Morais

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