Orquestra de Mato Grosso exibe a ‘Música de Fronteira’ nos últimos Concertos Oficiais do primeiro semestre

Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil. Os Concertos Oficiais de maio – dias 5 e 6, no Cine Teatro Cuiabá, às 20h no sábado e 19h no domingo – exibem ao público mato-grossense peças com origem nos países de fronteira e com grande repercussão na cultura musical do Brasil, em especial de Mato Grosso.

Verdadeiros hinos adaptados e arranjados para orquestra por importantes nomes da atualidade: Ricardo Vasconcelos [DF], Italo Peron [SP], Paulo Aragão [RJ], João Guilherme Ripper [RJ], Arthur Barbosa [RS], Daniel Sá [RS] e João Egashira [PR], quase todos especialmente trabalhados para a Orquestra de Mato Grosso. “Este repertório revela o rico universo cultural dessas quatro pátrias vizinhas que formam uma verdadeira região cultural supranacional”, lembra o maestro Leandro Carvalho.

Nas fronteiras do Brasil, um ritmo comum e transversal é o chamamé, principal gênero de música popular do nordeste da Argentina, derivado da polca paraguaia e já pertencente à cultura musical do Brasil. O chamamé adentrou o Brasil pelo estado do Rio Grande do Sul e cativou uma legião de apreciadores, enriquecendo assim a cultura brasileira e arrebatando milhares de adeptos por todo território nacional. Segundo o pesquisador Guapo, em Mato Grosso, o chamamé desenvolveu-se mais na região pantaneira, onde adquiriu características próprias, sendo identificado como chamamé pantaneiro, já que os temas sempre fazem referências a esta região. Ainda de acordo com o pesquisador e compositor Guapo, “o chamamé pantaneiro lembra o trotar preguiçoso de um cavalo nas campanas, com seu dono no dorso, sem pressa de chegar ao rancho”.

Além do chamamé, os Concertos Oficiais de maio também exibem a guarânia, de origem paraguaia, criada por José Asunción Flores na década de 20, ritmo que exprime um romantismo doce e bucólico. Também ouviremos a polca paraguaia, um andamento que surgiu na bacia platina e sugere uma dança rápida e agitada. O repertório baseado na música de fronteira entre Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina ainda passeia por rasqueados e mazurcas. O gaiteiro Renato Borghetti, em entrevista ao site da OEMT em 2011, disse: “os ritmos uruguaios, paraguaios e argentinos estão misturados ao nosso nossos ritmos, harmonizando a música de fronteira”.

Desvendando o Repertório

A origem do chamamé ainda é desconhecida, embora existam muitas tentativas para explicá-la. A mais comentada é aquela que considera a história do viajante paraguaio, o instrumentista Samuel Aguayo, que estava a caminho de Buenos Aires e que num sarau da região de Corrientes, na Argentina, resolveu improvisar para segurar os presentes… Surge assim o chamamé correntino. Para abrir os Concertos Oficiais de maio, Km 11, composição do argentino Transito Cocomarola é o que se pode chamar de ‘um chamamé clássico’. Aliás, é a canção mais representativa desse tipo de música e transformou-se num verdadeiro símbolo dessa expressão musical.

Em seguida, Merceditas, um romântico e apaixonante chamamé correntino, escrito por Ramón Sixtos Rios, foi inspirado numa história de amor não correspondido entre o compositor e Mercedes Strickler, uma jovem camponesa que vivia aos arredores da província de Santa Fé. Para fechar a parte do repertório fronteiriço com a Argentina, mais um chamamé, Villa Guillermina, de autoria de Molina Gregorio e Ricardo Visconti Vallejos, uma homenagem à província de Santa Fé, onde nasceu Vallejos.

Do Paraguai, a OEMT exibirá dois importantes andamentos musicais do folclore daquele país: a guarânia e a polca paraguaia. Para começar, uma guarânia mundialmente famosa, Recuerdos de Ypacarai, escrita por Demetrio Ortiz e Z. de Mirkin. Em seguida, Lejania e Mi Oración Azul, duas outras guarânias, escritas pelo mestre Herminio Gimenez. É curioso notar que a guarânia surgiu de uma alteração de compasso da polca paraguaia, quando em 1925, o trombonista José Asunción Flores tentava ensina a músicos europeus o ‘sincopado paraguaio’ da polca, e para facilitar, Flores desacelerou o compasso, e toda vez que ia começar o próximo, aqueles músicos europeus paravam, como se houvesse uma fermata. Dessa pausa sucessiva na cadência do compasso surgiu a guarânia.

E é justamente de José Asunción Flores, o criador da guarânia, as últimas peças da parte do repertório dedicado a música paraguaia. Choli, uma polca paraguaia acentuadamente nativa – nos anos 50, segundo o pesquisador Guapo, houve um movimento musical que queria trocar o termo polca por kyre-ÿ, por ser este um vocábulo guarani que significa ativo, brilhoso, vivo e estava mais próxima da antropologia do povo guarani. O movimento não deu certo porque o mundo todo estava em plena era do disco de vinil de 78 rpm e o nome polca paraguaia já estava consolidado como gênero musical no mercado fonográfico – e Índia, uma composição fruto da parceria entre Flores e M. Ortiz Guerrero. Vale lembrar que Índia é considerada a primeira guarânia conhecida fora do Paraguai.

Do Uruguai, a Orquestra do Estado de Mato Grosso exibirá um representativo tema daquele país, a valsa Desde El Alma, composição de Rosita Melo e Homero Manzi, escrita quando Rosita tinha apenas 14 anos. Tempos mais tarde, a peça recebeu duas letras: uma do poeta Víctor Piuma Vélez, com quem Rosita se casou em 1922, e outra de Homero Manzi, esta última na década de 1940 para o filme Pobre Mi Madre Querida.

Já na parte do repertório que compete ao Brasil, teremos canções típicas dos pampas – que possuem todas as influências de um estado de fronteira como o Rio Grande do Sul – tais qual a guarânia e o rasqueado de fronteira -, além do chamamé pantaneiro e da intrigante mazurca, interpretada como ninguém por Roberto Corrêa.
O repertório abre com a guarânia Saudade, uma triste e envolvente composição de Mário Palmério. Em seguida, um dos mais emblemáticos rasqueados de fronteira, a conhecidíssima Chalana, de Mário Zan e Arlindo Pinto. “O rasqueado de fronteira nada mais é do que a polca paraguaia tocada no Brasil, a única diferença são os temas das canções”, compara Guapo. E é de Guapo a próxima peça a ser apresentada, Canto Guacho, um chamamé pantaneiro voltado a realidade da região do Mato Grosso e do Brasil central.

Por fim, duas composições de autoria do mestre da viola caipira e viola de cocho Roberto Corrêa: Peleja da Siriema Com Cobra e a Mazurca Do Viajor. É curioso citar que a mazurca é uma dança popular de origem polonesa, que ficou muito conhecida nas ilhas de Cabo Verde [Portugal] e em Nice [França]. Trata-se de um ritmo ternário que faz parte da herança cultural musical, assim como o xote, a polca e a valsa, trazidas para América na época do Brasil colônia.

SERVIÇO
O QUÊ: Concertos Oficias de maio – Música de Fronteira
QUANDO: 5 e 6 de maio, 20h e 19h respectivamente
ONDE: Cine Teatro Cuiabá
QUANTO: R$10 (inteira) e R$5 (meia)
INFORMAÇÕES: http://www.orquestra.mt.gov.br
(65) 3027-1824

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